Sábado, Junho 27, 2009

c'est fini!

Foi num dia frio de domingo que, em casa estudando, o tal do Sandro abriu o msn e sentiu náuseas de tédio de ver sempre os mesmos nomes online. Ó, grande infortúnio de vida!
Então, foi num dia frio de domingo que o tal Sandro largou a leitura, trocou de roupa, decidiu abandonar o semestre da faculdade e o emprego miserável no telemarketing e foi embora, morar com o tio em Florianópolis.*

* Isso é o que a Manuela acha que aconteceu. De verdade, ela só achou um bilhete escrito, do lado do computador com o msn aberto e 7 maricas chatas, amigas do Sandro, fazendo aquela janelinha piscar alucinadamente.
De verdade, ela só achou um bilhete dizendo: Não valeu a pena!
Leu o bilhete sorrindo, desligou o msn e faxinou a casa cantando Elis num volume alto como não o era há anos.
Há bons anos, no fim das contas!

Quinta-feira, Maio 21, 2009

parte 2 - frustração

Eu gostava de nós três, quando éramos todos amigos. Mas o Sandro era homem. É preciso perpetuar a espécie, por isso as pessoas se apaixonam. Eu precisava, ela também. O Sandro era homem. Homem! (ops! enfatizei a palavra errada. Em “homem!”, substitua por “era!”).

Eu sei que ele gostava dela, mas gostava de mim também e eu disse o que ela jamais diria: fica comigo, e leia: só comigo!

Ele ficou. Não por que gostasse mais de mim, mas porque não sabia escolher – ou escolheu não escolher na vida. O Sandro era um guri legal, inteligente, sexual, e incapaz de viver uma grande paixão. Sempre desejei, aliás, que ele me expulsasse de sua vida por ter, finalmente, amado mais do que “amou” as duas amigas.

Mas ele ficou, comigo.

Eu achei que ele fosse sentir falta dela. Não sentiu.

Pensei em terminar nossa relação algumas vezes, mas seria deprimente saber que ele não sentiria minha falta, também.

E ele parecia tão interessante quando éramos três! Parecia tão digno de ser meu namorado de história romântica.

Se eu tivesse lido os artigos do RLi, talvez fôssemos três ainda. Talvez eu dependesse menos desse ideal de romance, paixão, troca a dois e tudo que me foi imposto pela Sociedade Cristã Capitalista Patriarcal Racista Ocidental ETC, ETC.

Mas eu li Anna Karenina. E fomos três, novamente. Eu, o Sandro e qualquer um. Qualquer um que me desse romance. Qualquer um que tivesse vontade de deixar de ser Sandro uma noite. E, sim, todos os meus amantes eram Sandros que não deixavam, nem desejavam as mulheres que tinham em casa. Mulheres que, como eu, buscavam paixão com outros Sandros em encontros clandestinos.

Eu sei que ela sofreu pelo meu macho, por isso resolvi deixar um depoimento no Orkut: Não valeu a pena!

E sei que ela entendeu, com isso, que a gente não conversa mais, que sexo não é tudo, que aquilo nem era amor. Não, não era. Era só meu corpo, biologicamente escolhendo o único macho disponível naquele momento. Era só isso!

Sexta-feira, Janeiro 16, 2009

A saga de um monte de gente – parte 1

É engraçado falar sobre algum assunto que lembre uma pessoa, com a qual não pensamos em encontrar, ao acaso, pouco depois de encerrado o diálogo.
Foi assim que eu vim jantar com o Pedro, que dorme, aqui do lado, enquanto eu conto isso pra vocês.
O Pedro é o terceiro.
Na verdade, importam o Thiago e o Sandro. Em outro plano, importa a Manuela.
Eu contava a uma colega sobre o recado que a Manuela me deixou outro dia. Não valeu a pena!.
É que nós éramos amigas, e amigas do Sandro. Até que amantes do Sandro. No final, ela ganhou. E eu que fumasse!
Conheci o Thiago. Afinidade e o caralho (O caralho). Procurei o nome da Manuela no obituário do jornal, por três meses. Desistindo, fui morar com o Thiago.
Às noites, eu inventava a vida do Sandro e da Manuela. E todas as vezes em que o meu querido Thiago me deixava enojada com aquele jeito especial de apalpar o abacate certo na feira de frutas, eu imaginava a virilidade do Sandro entocando abacates podres no saquinho transparente, enquanto a mulher ria do seu macho tosco. E tudo terminava, obviamente, em sexo – então, eu virava pro lado do Thiago e era assim, como uma vingança doentia e competitiva, que a gente trepava, enlouquecidamente. E eu que gozasse!

(continua...)

Terça-feira, Novembro 25, 2008

Sensibilidade canta Sensibilidade

- Alô!
- Fabiano, prazer?
- Prazer!

Liguei e foi bom, sim! Bati nele como se batesse em cada vítima de agressão que meu adorável marido e seus amiguinhos tanto defendem.

[E parece que foi ontem, quando esse era o homem que mais ocupava os nossos telefonemas... entediante, amiga!]

O Cláudio? Na verdade ele continua sendo o homem mais presente nas nossas conversas, querida... a novidade é o Fabrício, rs.

[Não era Fabiano, rs? Mas é verdade... os adjetivos do Cláudio estão menos entediantes, também]

Magrelo, manso e explicando pro filhote porque não deveria matar as formiguinhas. Um-amor!

[Nunca entendi onde ficou o encanto...]

Ah, na hipocrisia, querida! Lembro daquele bando de magrelas sofrendo com a violência do ser humano contra o seu semelhante, na brutalidade contra os tucanos, no racismo, no machismo, no caralhismo... e a Ana lá, traindo a desgraçada da Valéria com os guris, decerto até com o Cláudio.

[Se bem que o Cláudio, pelo que tu já contou...]

É, frustração de mais com a humanidade não podia dar em outra coisa dentro de casa. Antes do Fábio, nem lembrava o que era a porra de um orgasmo, nem mesmo a porra.

[Fábio? Mas não era... ah, esquece, rs! Sempre pensei que revolucionários não trepavam... O Adriano, por exemplo, ficava duas horas no banho, não entendia nada de MST, mas fazia A revolução em mim, amiga, rs...]

Mas a questão não é essa, e o Adriano, desculpa!, era um idiota completo.

[Decorou ótimos adjetivos, na verdade e...]

O problema todo é que odeio gente que não se enxerga humana, sabe? No fim das contas, a mulher espancada, o negro discriminado e o papagaio na gaiola são tão vítimas quanto a Valéria é vítima da Ana. E o silêncio insuportável do meu marido, cada hora de atraso e cada noite de sexo perdida me doem tanto quanto doeria apanhar inocente numa briga de fim de festa. As Vítimas dos Justiceiros, daria até nome de livro, filme, novela...

[O ser humano é detestavelmente insensível!]

O ser humano, na verdade, é pura sensibilidade. Insuportável é a pseudoconsciência de superioridade de um ato sobre o outro, de um homem sobre o outro.

[Não sei se te entendi...]

A violência física, pro Cláudio, é baixo, é inexpliclável. O que não se explica é calado, logo, o Cláudio é puro silêncio.

[Silêncio, beirando a apatia, beirando o descaso...]

É, e a violência agride o Cláudio, que responde com o descaso. O descaso do Cláudio me agride e eu...

[Responde agredindo o michê.]

Super humana, rs! Com consciência da igual sensibilidade presente em mim, no Cláudio, no Hitler, no escravo e no michê. E a Ana continua se achando justa, a Valéria continua sendo vítima das traições da justa Ana, o vendedor de tucano continua pensando no dinheiro pra família e o Cláudio continua não me comendo.

[E vocês continuam casados... vê se pode!]

Eu continuo achando que um dia ele vai perceber que não deve matar a formiguinha aqui, rs.

[E a Valéria deve sonhar com o dia em que a Ana vai ser só dela...]

E o vendedor de passarinho sonha com o dia em que a turma do Cláudio vai pagar para ele parar de levantar de madrugada só para maltratar a natureza.

[Odeio a humanidade, odeio revolucionários e odeio o teu marido, rs]

Eu os amo a todos. Sempre tive orgulho das idéias do Cláudio, só queria que ele se enxergasse humano...

[E violento...]

É.

[O que fazer, querida?!]

Eu vou dormir, e tu, rs?

[Do jeito que as coisas andam deste lado da linha, acho que arsênico, mas só sexta... amanhã queria te ver.]

Cinema?

[Compras!]

O convite é teu, rs.

[Boa noite, Phaela!]

Beijos, Ema!

Terça-feira, Setembro 02, 2008

vinho rosé

“(...) Sentada na cama, em frente à janela do quarto de hotel, neste dia em que acordei abstrata, desejo, profundamente, desejo, feito vingança mesquinha, desejo que estejas sofrendo a minha ausência, e quero que doa. Ah! Como quero que doa! E acendo um cigarro, na náusea do vinho barato de ontem e, vil, da vileza mais torpe e mais faceira, quero que minha ausência, em ti, doa.
(...)
– Que a minha ausência te doa! Que a eternidade te queime! Mas. Que o teu amor me procure. – E fecho os olhos e cruzo os dedos e tivesse mesa neste quarto tão pequeno de hotel e eu me meteria embaixo dela, feito criança teimosa, e feito criança teimosa bateria com a cabeça três vezes e pediria e imploraria e choraria que o teu amor me procure que o teu amor me procure que o teu amor me procure e.”¹

Ai, essa dor cor-de-rosa... Descobri essa Helena num livro de contos de uma professora minha. Senti mulher em mim, senti mulher na Helena, senti mulher na minha professora (ainda não assisti a nenhuma aula desde que o livro veio parar em minhas mãos, não sei como vou encarar a professora e pensar na Helena e pensar que se sente enquanto se escreve e que, sentimento assim, só sentindo pra conhecer e falar sobre).
Acho que só me vi feminina – mu-lher-zi-nha, mesmo – depois de ter sentido essa dor sufocada, que se abafa na necessidade de, parecendo bem, colocar vestido, pintar os olhos, passar perfume – tecidos floridos pra estampar a “segurança” com um quê de fragilidade.
Homem dói na gente – mesmo que ele seja outra mulher.

___
¹ TUTIKIAN, Jane. Entre mulheres (contos de amor aprendiz). Porto Alegre: WS Editor, 2005.

Terça-feira, Agosto 26, 2008

romanceando

Hoje é um daqueles dias em que eu queria contar história, mas o telefone acaba de me chamar pra viver a história.
Vou ali - beber minha novela, dormir meu conto, possuir meu poema, beijar meu romance, respirar minha epopéia!
Sinto como se cada movimento meu fosse rabisco da caneta de um grande artista - que desenha seu texto em mim com caligrafia delicada.

Sexta-feira, Junho 06, 2008

Esta televisão não tem entrada para DVD

Quando eu te vi, primeiro na lotação e, alguns minutos depois, algumas paradas depois, no mesmo bar em que nunca te vi por três anos – porque eu teria me lembrado do teu rosto sem piercing, do teu cabelo castanho e desse olhar comum que seria tão único pra mim três anos depois da primeira de freqüentes idas ao barzinho árabe da esquina enjoada do meu prédio –, a verdade é que, quando eu te vi naquela noite, não lembro como os olhos que estavam duas mesas à esquerda da minha, sem mais nem menos, encaravam os meus distantes por poucos centímetros – até que tudo ficou escuro, mas não é sobre isso que eu queria falar.
Eu só precisava te contar que, quando eu te vi naquele bar, alguma coisa – que eu não sei muito bem até hoje – me atraiu praquela conversa estranha, que terminamos no meu apartamento. Terminar, não terminamos, na verdade, mas foi na primeira dessas várias conversas de madrugadas intermináveis que eu permiti que acontecesse toda essa história que me invadiu a ponto de me tirar do mundo e que fez crer que eu já não tinha o que procurar. E querer o quê mais desta vida se tudo que eu precisava existia cada vez que te via abrir a porta, com vinho, pizza e fitas de vídeo na mochila? Foi então que ela lembrou meus dezenove anos e disse que havia coisas pra mim no mundo, e que era preciso viajar pra longe, conhecer pessoas e lugares. Experiências, outras experiências. Então, o “nós” começou a me sufocar, por ser tão bom, tão completo que não me fazia desejar qualquer outra coisa. E desejar é participar da vida. Eu precisava ir atrás de alguma coisa, e fui. Não gostei das pessoas que eu conheci, porque não pude falar sobre elas contigo. Talvez, tu gostarias de ver algumas fotos, ouvir algumas histórias engraçadas. Eu aprendi a falar alemão e a desejar te ter por perto o tempo todo.

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(papel fechado)

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– Ah, entrega pra’quele moço de blusa verde e olhar perdido, por favor?